Faz mais ou menos um século que a expectativa de vida das populações vem aumentando sem parar. A meia idade foi a faixa onde esta evolução apareceu com mais clareza.
Agora, nos Estados Unidos se observa o fenômeno inverso. Ao menos, no que diz respeito a pessoas brancas, não latinas e com baixa escolaridade – aquelas que não foram além do Ensino Médio.
O fato foi detectado em pesquisas conduzidas por Angus Deaton – prêmio Nobel de economia em 2015 – e sua mulher, Anne Case, ambos professores na Universidade de Princeton e acabou se tornando um importante ponto para os debates na última eleição presidencial.
***
Os estudos de Deaton e Case mostram que entre 1978 e 1998 a mortalidade média anual de pessoas entre 45 e 54 anos ia decrescendo à razão de 2% ao ano, num ritmo igual ao de outros países ricos do mundo. Daí por diante, enquanto a mortalidade nesses países continuou em queda, nos Estados Unidos começou a crescer cerca de meio por cento ao ano. No caso das mulheres brancas de baixa escolaridade, isto significa uma tendência a morrer cinco anos mais cedo do que a geração de suas mães.
***
O que estaria acontecendo?
Estamos diante daquilo que vem sendo chamado de “deaths of despair” (mortes por desespero) – afirmam Deaton e Case.
Constatou-se que a camada da população de meia idade referida é vítima da falta de perspectivas para o futuro. Essa situação responde pela diminuição da expectativa de vida, pois daí derivam as “mortes por desespero”, ou seja, aquelas mortes relacionadas com o excesso de remédios contra dor ou de tranquilizantes; as mortes ligadas às doenças decorrentes do alcoolismo e da obesidade, além das mortes por acidentes e por suicídio.
***
Os empregos para pessoas com baixa escolaridade estão escasseando nos Estados Unidos. Isto determina que a geração que se encontra agora na meia idade tenha um nível de vida bem inferior ao de seus pais e não veja chance de melhora. Ao contrário, já perto da aposentadoria, as pessoas verificam que não puderam fazer um pé de meia e, muito menos, poderão fazer de agora para diante. Como se sabe, nos Estados Unidos, as aposentadorias são muito baixas e as pessoas têm de economizar ao longo da vida se querem desfrutar de uma velhice tranquila.
***
Em resumo, essa camada da população de meia idade está num mato sem cachorro – para usar uma expressão que conhecemos bem. Desempregadas ou com empregos ruins, as pessoas não têm dinheiro guardado para a aposentadoria nem para cuidar de sua saúde agora. E ver-se num mato sem cachorro mata.
***
Falta saber quais os efeitos sobre os brasileiros deste mato sem cachorro que vivemos aqui…

