O ator Lázaro Ramos publicou uma espécie de autobiografia neste ano de 2017. O livro se chama “Na minha pele”. Ali, Lázaro Ramos compartilha experiências pessoais e, de modo especial, conta como foi a tomada de consciência da condição de negro e do preconceito de raça.
Acontece que Ramos nasceu e cresceu numa comunidade de pretos e só quando começou a conviver com pessoas brancas se deu conta de que existia a possibilidade de ser rotulado negativamente a partir da cor da pele. Ou seja, mesmo sem saber nada sobre ele, havia chance de alguém classifica-lo como inferior e pior.
Como se pode imaginar, essa foi uma experiência violenta. Ninguém fica indiferente a algo assim.
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A grande virtude do livro é a sinceridade. Lázaro Ramos abre o coração. Fala de modo espontâneo e despretensioso. Não assume papel de vítima, não cobra nada. Quer somente contribuir para que as pessoas consigam se colocar na pele do outro e perceber que cada um só enxerga uma parcela da realidade. Para abarcar a realidade mais ampla, é preciso somar as experiências individuais.
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Lázaro Ramos explica esta ideia, incluindo no livro uma lenda africana sobre origem. Figurativamente, a lenda demostra a limitação do olhar particular.
A lenda é assim:
“Entre o Orum (mundo espiritual) e Aiyê (mundo material) existia um espelho e tudo o que aparecia no Orum materializava-se no Aiyê. Ou seja, o mundo espiritual refletia exatamente o mundo material. Portanto, era preciso tomar muito cuidado com o espelho. O espelho refletia toda a verdade do mundo.
Um dia, a jovem Mahura estava ajudando sua mãe a ralar inhame. Um segundo de distração foi o suficiente. Mahura perdeu o controle do movimento ritmado da mão, bateu forte no espelho e este se espatifou lançando cacos pelo mundo inteiro.
Daquele dia em diante, não existiu mais uma única verdade. Quem achar um pedacinho do espelho estará encontrando apenas uma parte da verdade, porque cada caco de espelho reproduz apenas a imagem do lugar em que se encontra”.
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A lenda africana ensina que ninguém pode se achar o dono da verdade, simplesmente porque ninguém tem condições de conhecer a verdade inteira. Quem quiser se aproximar dela, terá de juntar o maior número possível de parcelas de verdade, estas mesmas que estão com cada pessoa.
A lenda africana manda descer do salto e compreender como é curto o alcance da visão que cada um tem do mundo.
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Ler “Na minha pele” e pensar sobre preconceito pode ser um bom plano para 2018.
Feliz Ano Novo!

