Com a aproximação do Natal, paradoxalmente, vem a hora das coisas. Coisas para comprar, coisas para dar de presente, coisas para rechear a mesa das festas.
Ninguém tem nada contra a generosidade, muito menos, contra a alegria. Mas, talvez, a hora também convide a pensar. O fato é que os tempos modernos nos fazem precisar de coisas demais. Como se as coisas pudessem tapar buracos de dentro.
Eu já escrevi aqui a respeito. Parece que faz muita falta um São Francisco das coisas. São Francisco de Assis ensinou a amar as criaturas de Deus. Pois parece que agora seriam necessárias lições de amor às coisas também, para além do amor aos pequenos e humildes.
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Eu tenho pena das coisas. A consideração pelas coisas anda escassa. As coisas são vítimas de maus tratos. Estamos nos acostumando a maltratar as coisas. Cada vez mais.
Você desembrulha um sabonete e nem se digna a usá-lo até o final, já está pronto para pegar outro. Mas também este vai usar na pressa, você está doido para experimentar o próximo sabonete.
Você compra uma camisa linda, dá duas usadas, deixa cair um pingo de catchup na frente e não tem paciência de tirar a mancha. Faz o quê? Joga pro lado e lá fica ela, até que uma faxina rigorosa a coloque na sacola de dar. Adeus camisa. A peça tão cobiçada vai embora assim no mais. Sem nenhum remorso.
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O mais incrível é que você se apaixona perdidamente pelas coisas. A calça jeans exposta na vitrina desperta um amor urgente. Você imediatamente sabe que não pode mais passar sem ela. O dinheiro anda curto, quase que não dava para comprar a calça. Mas você compra. Sabe que vai ter dificuldade de pagar, mas compra, tem de comprar a calça. Depois, acontece o quê?
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Está fazendo falta um São Francisco das coisas. Um São Francisco para dar lições. Ensinar a recolher brinquedos largados e perdidos pelos cantos. Ensinar a tirar da chuva a bicicleta. Um São Francisco para cuidar melhor dos estofados. Um São Francisco para dobrar a roupa e raspar a lama dos sapatos. Principalmente, sim, principalmente, um São Francisco para aplacar o afã que traz para casa o que não é preciso e joga fora o que não deve. Um São Francisco para ensinar o amor das coisas. Que também elas são criaturas do Senhor. As coisas todas nasceram do talento e do esforço de incontáveis mãos. As coisas estão aí para enriquecer a vida e merecem, por isso mesmo, amor igual ao que merecem os demais seres que compõem o nosso tempo.

