Quem lembra o caso é o prof. Cláudio Moreno, um especialista em história e cultura clássica. Passa-se na antiguidade e é mais ou menos assim:
O rei Pirro organizava expedição para invadir a Itália, quando o sábio de nome Cinéias lhe perguntou o que faria se tomasse a cidade de Roma, que era o primeiro alvo.
– Se vencermos Roma – o rei respondeu – nenhuma outra cidade será capaz de resistir. Vamos dominar a Itália inteira.
Cinéias voltou à carga:
– E depois?
– Ora, bem perto dali, fica a Sicília. A ilha é rica. Vencida a Itália, será muito fácil tomar a Sicília. Vamos subjugar a Sicília e confiscar os seus tesouros.
– E ali na Sicília será o fim de nossa expedição? – continuou o sábio.
– Não, Cinéias, isso vai ser apenas o começo de nossas grandes conquistas, pois aí nada nos impedirá de lançar a mão sobre a Líbia e depois a poderosa Cartago.
– E quando tivermos tudo isso, o que nós vamos fazer? – o sábio não sossegava.
– Então teremos bastante tempo para nosso descanso, e, todos os dias, com as taças na mão, vamos nos divertir a valer! – respondeu Pirro, às gargalhadas.
Cinéias interrompeu o rei e falou com severidade:
– Mas, Majestade, isso nós já podemos fazer hoje. O que nos impede, desde já, de ter essas taças na mão e passar todo o tempo em descanso, sem guerras, nem conquistas, nem derramamento de sangue?
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O que pensar dessa história que vem sendo contada ao longo dos séculos? Sair atrás de desafios e conquistas, como Pirro, ou permanecer no sossego, como Cinéias sugeria? Buscar outros horizontes ou aquietar-se?
A dúvida de Cinéias resumia-se a uma pergunta “para quê?”. Ou seja, para que tantas batalhas, se o rei tinha condições de contentar-se com o reino que herdara e podia passar o dia entre taças de vinho, na diversão, sem preocupações?
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Quando a pergunta se aplica, não aos planos de um rei poderoso, mas à vida de cada, fica ainda mais difícil de responder.
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Não sei se a história de Pirro quer servir de ensinamento. Mas, entre outras coisas, dá para pensar o seguinte:
Viver é tecer sonhos e ir ao encalço da realização deles. Viver é aceitar desafios – ganhar, perder, mudar. Seja na vida dos países, seja na vida das pessoas individualmente. O objetivo não seria vencer uma dificuldade, para, então, embainhar a espada. Descansar mais se aproxima de morte do que de uma definição para a vida.
A vida é combate – diz o verso famoso de Gonçalves Dias.

