Tive uma infância muito despreocupada de chaves. A casa dos meus avós, por exemplo, não precisava mais do que uma tramela na porta. À tramela, cabia barrar algum animal em busca de abrigo, ou evitar a chuva e o frio.
Na nossa casa, a porta era fechada de noite. De dia, permanecia só encostada. Na hora de ir para a cama, puxava-se a tranca que acompanhava as fechaduras da época. Eram comuns as fechaduras compostas de chave e de uma tranca de metal. Também eram comuns as barras de madeira que atravessam as portas por dentro e se encaixavam em suportes colocados de um lado e de outro.
Mas, verdade seja dita, naquele tempo, a fechação da porta era uma coisa meio pró-forma. Se fizesse calor, a porta podia estar fechada, mas as janelas ficariam abertas de par em par. Deixar abertas as janelas, aliás, era o jeito de conseguir algum ar fresco. O medo de uma invasão perdia de goleada para a briga contra o abafamento.
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Ao longo da vida lidei com vários tipos de chave. Nunca gostei muito delas. Conheço gente que adora ouvir o barulho do molho, gente que anuncia sua chegada só pelo tilintar das chaves. Não é o meu caso.
As chaves me desagradam porque elas pesam na bolsa. Você reúne a chave da casa, a chave da garagem, a chave da caixa de correio, a chave do carro, chaves do local de trabalho… e, além de tudo, se perder, é uma chateação e tanto.
Em resumo, tenho saudade da infância sem chaves.
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Ou melhor, tinha. Agora não preciso mais. O futuro chegou. A viravolta está batendo na nossa porta e vai entrar… sem precisar de chaves.
Uma revolução tecnológica atinge o mundo das fechaduras. Basta pesquisar na internet. As fechaduras ficaram inteligentes. Em vez de chaves, elas pedem nossas digitais ou um código. As fechaduras podem ser abertas via telefone, à distância. Em alguns modelos basta um comando de voz, um sensor da nossa presença. A mesma coisa vale para os automóveis. Os carros já são capazes de distinguir entre o dono e o ladrão, por assim dizer. Passeie na internet para se admirar ainda mais.
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A roda do tempo girou e aqui estamos nós outra vez sem necessitar de chaves.
Portas continuarão sendo fechadas e abertas – isto é verdade – mas com mecanismos quase mágicos. Barras de madeira, trancas, molhos de chaves estão com os dias contados. Nem a tramela será poupada.

