Quando recém começava esta onda de fazer caminhadas e de malhar em academias – que hoje parece tão natural, mas uma vez não era – ficou famosa na família uma brincadeira do tio Ireno.
Se os adeptos dos exercícios pressionavam para ele entrar no embalo, a resposta vinha com ar de toda seriedade. Contava que tinha contratado um guri e que pagava o guri para caminhar por ele todos os dias. E, ainda mais, como o guri caminhava todos os dias, ele ganhava longe desses que só malhavam umas míseras duas vezes por semana…
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Lembrei da história nesses dias, quando assistia à conferência do psicanalista Contardo Calligaris.
Calligaris veio falar sobre o sentido da vida.
Poucas coisas são mais tremendas do que o desafio de encontrar o sentido da vida. Como encontrar e como saber que a gente encontrou?
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Contardo Calligaris fez uma exposição bela e inquietante. Em resumo, disse que a busca do sentido da vida é individual e indelegável. Quer dizer, não dá para terceirizar, não dá para contratar alguém para fazer em nosso lugar…
Ou seja, segundo o conferencista, cada um constrói sentido para a existência, a cada passo que dá. Às vezes, a tentação é deixar que alguém faça isso por nós. Sejam nossos superiores; sejam pessoas em quem confiamos. Mas o fato é que cabe a cada um inventar a própria vida – disse ele – e que a gente trate de inventar uma vida interessante! Aliás, Calligaris é famoso por dizer que prefere ter uma vida interessante a ter uma vida feliz.
Outra tentação é imaginar que o sentido se encontra em algum lugar fora de nós mesmos. Por exemplo, nas mãos da divindade. Ou então, na posse de coisas. Ou na obediência às vozes da moda. Ou na aparência. Neste caso da aparência, o sentido viria do teatro que representamos para receber o aplauso/a inveja dos outros.
Para Calligaris, o sentido está nos atos da vida básica e concreta.
Viver com sentido, quer dizer, prestar atenção ao momento que estamos atravessando. Neste ponto, reconhece que a comunicação eletrônica pouco ajuda, porque nos deixa ainda mais desatentos, distraídos. Damos meia atenção ao pão que comemos, mal ouvimos um filho, mal percebemos a sucessão das estações do ano. Etc.
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É doloroso pensar que podemos estar deixando escapar a chance de viver com sentido. E não vá a gente querer se salvar, contratando alguém para fazer em nosso lugar.
Aqui, como no caso do exercício físico, a esperteza do tio Ireno tem resultado zero.

