Sou do tempo em que comer bem queria dizer comer bastante. Do tempo em que fartura significava panelonas ocupando toda a chapa do fogão; um fogaréu, tostando nacos espetaculares. Ou, as duas coisas ao mesmo tempo. Fartura queria dizer grossas fatias de pão para comer com melado e nata e também bacias transbordantes de bolinhos fritos, passados em açúcar e canela.
Essa ideia de boa mesa estava ligada ao quadro social em que cresci e às influências da origem. Descendentes de imigrantes mantinham a lembrança das privações passadas e, uma vez melhorada a vida, descontavam o atraso nos pratos que comiam. Porém, subtraído o aspecto cultural, salta aos olhos que o terreno da gastronomia se transformou muito, tanto como… como todos os demais setores.
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Hoje, comida é assunto na TV e nas revistas. Parece que todo mundo quer aprender a cozinhar, quer saber arranjar a mesa, quer ser um conhecedor de vinhos, etc. No meu tempo de menina, coisas assim seriam besteira de quem não tinha mais o que fazer. Ninguém reparava em toalha e guardanapo. Restaurante era lugar conhecido por gente viajada. Fora da nossa mesa de jantar, comia-se nas festas da comunidade ou nas visitas a parentes. Telefonar para pedir comida era simplesmente inimaginável. Ninguém fazia comida para entrega. E telefone… ah! Telefone! Não era algo que se tivesse em casa.
Rezava-se antes da refeição – às vezes, também depois – em vez de fazer um brinde. O fato de agradecer (não brindar) por ter comida sobre a mesa fala por si mesmo…
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Os pratos obedeciam à tirania da rotina. A gente sabia de cor o roteiro da semana: segunda era dia disso, terça, daquilo e assim por diante. O requinte ficava por conta de um queijo ralado eventual ou das contribuições do quintal de casa: sálvia, manjericão, salsa e cebolinha verde. Mas ninguém teria coragem de dizer que não gostava de algum prato. Comia-se o que estava sobre a mesa e pronto.
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Você não vai acreditar, mas a minha geração tem saudade da mesa antiga. Gostamos das modernidades, claro, mas sentimos falta desse tempo. Era possível comer metade de uma cuca recém desenfornada e torresmo com muito sal por cima, entre outros acepipes. Temos saudade dessa época pré-colesterol, pré-contabilidade de calorias – época em que ser gordo até contava pontos a favor.
Haveria chance de recuperar a mesa antiga?
Acho que não tem jeito. Foi-se a era da inocência.
Acabou-se o que era doce e quem comeu se arregalou-se – como se dizia antigamente.

