Antes do Natal flagrei meus netos num papo animadíssimo. Conversavam sobre a tonelada de presentes que iam ganhar. Fiquei escutando sem fazer barulho. Engoli o riso, pra não melar a fantasia. A lista era quilométrica. Aliás, nem tinha fim. Isso e isso e isso e também isso e… Sempre mais alguma coisa. Sem limites.
§§§
O caso me deu o que pensar.
É assim mesmo que funcionam os desejos. E não só os desejos infantis. Também na idade adulta, desejos não querem nem saber. Desejos não têm noção. Se for pelo querer, nós queremos tudo, o tempo todo. As crianças – como sabemos – armam um barraco ao perceber o desencontro entre o desejado e o possível. Sapateiam, choram, até… até ganhar o que estão pedindo ou até notar que nem sempre dá. Os adultos, ah! Nós adultos somos capazes de cada coisa! Sopapos e subornos, gritaria, corrupção, no limite botamos aviões a soltar bombas…
§§§
Seria de esperar que os anos ensinassem a baixar a bola. Mas a tarefa é mais difícil que parece. A um descuido, a criança em nós põe pra fora as suas manguinhas.
A gente anseia por ficar grande. Acha que, aí sim, vai fazer o que bem entende. Mas, ah! Aí é que são elas. Os adultos precisam decidir e decidir é complicado. E nem me refiro às decisões mais espinhosas, do tipo que muda o rumo de uma vida. Penso também nas situações de todo o dia. Por exemplo: alguém me convida para um café. Se eu aceito, terei de sair na hora X e perder, digamos, o capítulo da novela. É possível que eu fique em dúvida. Prefiro o conforto do sofá ou vou para o café? Provavelmente eu gostaria de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não queria ter de escolher, optar. Pior ainda: se vou, fico tentada a pedir uma torta de merengue e nata. Ou será que me contento com o cafezinho? Furo a minha dieta, me esbaldo na doçura, ou fico apenas na vontade?
A limitação da escolha é quase uma tortura que acompanha o dia a dia dos humanos. A encrenca é maior ainda, ao tomar consciência de que o tempo é curto, de que o tempo vai passando, de que o tempo foge entre os nossos dedos. Mesmo no intervalo, na hora do vacilo entre isto e aquilo, o tempo corre contra nós. Por sorte, em geral, a gente se movimenta no automático. Fecha os olhos e vai em frente, sem pensar. No máximo, quando é possível, aproxima as pontas e experimenta conciliar polos opostos. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Tipo uma trégua. Conciliar, ufa! A conciliação consegue dar alguma paz.
§§§
Acho que é por isso que todo mundo quer ganhar na loteria. Parece que a sorte grande vai dar corda pro reizinho que habita em nós. Com uma montanha de dinheiro – nós imaginamos – será possível mandar e desmandar. Prender e arrebentar! Ah! em vez de escolher isto ou aquilo, ter tudo agora e sempre!
Só que não.

