Numa das minhas viagens à Turquia, percorri a região nordeste do país, onde havia muitos refugiados chegados do Irã, do Iraque e da Síria.
Antes de prosseguir, conto que tenho amigos na Turquia e que esta é uma das razões para voltar lá diversas vezes. Outras razões estão ligadas aos encantos desse país de oitenta milhões de habitantes, cujo território fica situado em dois continentes: uma parte fica na Europa; outra parte fica na Ásia.
Bom, naquela visita ao nordeste da Turquia pude ver que os refugiados não eram muito bem-vindos. Estavam aí – ao que diziam – por um acordo do governo com as potências europeias. A Europa – me contaram os turcos – pagava para eles manterem os emigrados no seu território, evitando que fossem engrossar os subúrbios da Alemanha e da França, principalmente. Se é verdade, não sei. Foi o que me contaram.
Mas era verdade, sim, era verdade que havia milhares de refugiados e que a população turca não gostava disso. Não gostava, em parte, porque os estrangeiros tinham costumes estranhos. Muitas das mulheres, por exemplo, vestiam de preto dos pés à cabeça, deixavam só os olhos de fora. Usavam as famosas burkas. Dizia-se que qualquer um podia se esconder em baixo de uma burka e que os ladrões se disfarçavam assim.
Para mim o que espantava mais era ver muitos desses refugiados em locais turísticos. Havia casais bem jovens, a bordo de carros chiques, usando celulares moderníssimos e tênis de marcas caras. Os rapazes trajavam igual aos riquinhos brasileiros, mas as mulheres se apresentavam com as burkas, só os olhos de fora. Devo acrescentar aqui que nem todos os refugiados são pobres. Aliás, acho que aqueles que são muito pobres têm mais dificuldade de fugir. Para os ricos é mais fácil, tanto para sair como para se estabelecer num lugar novo.
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Agora que nós estamos usando máscaras e às vezes não sabendo bem como agir em público, me lembrei do espanto que experimentei ao ver mulheres de burka nos restaurantes. Como elas fariam para comer? Descobri então que o pano da frente, não é um pano único, tem uma parte que se pode levantar e que permite levar à boca o alimento. É só erguer essa parte a cada garfada que se dá. Parece meio incômodo, mas funciona.
Trago o caso aqui para pensar sobre a nossa dificuldade em aceitar os costumes diferentes. Ao meu olhar brasileiro, parecia impossível que as mulheres tolerassem a burka e se submetessem a comer daquele jeito. Mas vê, o costume estranho só parece estranho porque não é nosso costume. Quando a gente se acostuma, o estranho passa a ser normal.
Chego a pensar agora que aquelas mulheres podiam gostar da burka. Eu, depois do estranhamento inicial, venho me sentindo bem de máscara. Até já aprendi a respirar sem sufocamento. Cresceu a sensação de que ela me protege de coisas indesejadas, como vírus, perdigotos, mau-hálito. Mas, além disso, trouxe um bônus inesperado: dispensa bloqueador solar e maquiagem…
Por incrível que pareça, será que não vamos acabar querendo usar a máscara, mesmo depois que nos dispensem de fazê-lo?

