Ficar em casa por mais tempo do que se costumava tem ajudado a avaliar muitas coisas.
A companhia dos familiares, por exemplo, sempre pareceu insuficiente. A gente queria ter mais tempo uns com os outros, fazia planos, ficava chateado com ausências. Agora, no entanto, pode parecer que há tempo demasiado.
Surgiram desafios novos. A incerteza da situação, a preocupação com o futuro, a perda real ou possível de rendimentos, além do aumento do consumo de álcool, tudo somado resulta em conjunto perigoso. Não é por acaso que se multiplicaram as denúncias de violência em casa. Os índices de crescimento de agressões se elevaram para níveis alarmantes. No mês de junho, a Associação dos Magistrados Brasileiros e do Conselho Nacional de Justiça lançou a campanha “Sinal vermelho contra a violência doméstica”.
Já ouvi gente concordar com a famosa frase de Sartre, sem nem mesmo saber da existência do filósofo francês. Sartre disse que o inferno são os outros.
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O fato é que as nossas dificuldades aparecem melhor na convivência intensa. A nossa falta de paciência, o nosso desejo de controlar tudo, por exemplo, podem tornar difícil tolerar a falta de paciência e o desejo de controle que os outros têm…
Ou seja, é olhando para os defeitos alheios que a gente melhor pode reconhecer os próprios. Não vá ninguém cair na armadilha de sair por aí confessando os pecados dos outros. Cada um pode se encarregar de lidar com as fragilidades que encontra em si (se conseguir enxergar).
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Por outro lado, esta mesma situação de isolamento em que nos encontramos colabora para compreender como é importante a companhia das pessoas. O ser humano é um animal social. Precisa dos outros para sobreviver e para enriquecer a vida. É impossível ser feliz sozinho, diz a canção de Tom Jobim.
Muita gente chora a impossibilidade de realizar encontros. Nunca concordaria com a tal frase de Sartre citada acima. Acha que o inferno é ficar sozinho.
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Como atravessar a tempestade atual com menos dano?
– Não sei.
O caminho talvez fique menos pedregoso, se a gente conseguir alargar a tolerância com as frustrações. Seguir a sabedoria de Guimarães Rosa, que passa a receita seguinte:
“Devagar e manso se desata qualquer enliço; esperar vale mais que entender; janeiro afofa o que dezembro endurece.”

