Todo mundo conhece a história do rapaz que vai pela estrada afora, na boleia do seu caminhão. Rádio ligado à toda. Cabeça nas nuvens. Eis que, vencida uma curva, avista um policial rodoviário com radar em punho.
– Porta que paris! – o rapaz se desespera.
Na afobação, consegue baixar a velocidade para o limite permitido e, quase por milagre, ainda afivela o cinto. Suando a bicas, atende o sinal de parada. Mas quando o policial aponta para o chinelo de dedo nos pés, o motorista acha demais.
– Pô! Como é que o senhor acha que daria pra botar tudo nos trinques? Logo depois da curva, assim de supetão! Alguma coisa tinha que ficar pra trás. Do chinelo eu esqueci.
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Corta para o aluno na escola que copia do colega a resposta, na hora em que o professor se distrai com outra coisa. Ou do aluno que reclama da leitura que tem que fazer “para o professor X”.
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Corta para o trabalhador que deixa de usar o capacete e o cinto de segurança na hora em que ninguém está olhando.
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Corta para o grupo que festeja o sol do domingo, na alegria de estar junto, e só coloca a máscara quando enxerga a aproximação da viatura de fiscalização.
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Corta para a cozinheira que despeja num zás a massa de tomate vencida na panela, antes de algum abelhudo entrar na cozinha.
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Corta para o cara que compra um traje de festa caríssimo – mesmo sabendo que vai estourar o orçamento do ano inteiro. Mas compra para impressionar os outros convidados.
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Você que me leu até aqui já entendeu do que estou falando. Já entendeu que os casos são mais lamentáveis do que engraçados. Em vez de celebrar a esperteza, o objetivo aqui é perguntar como se explica esta disposição para viver em função dos outros, com o risco prejuízo próprio?
Como pode um estudante imaginar que está fazendo a tarefa para o professor? Como as pessoas podem esquecer que são as primeiras interessadas em preservar a saúde, o bem-estar, a estabilidade das suas finanças?
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Fico pensando se este tempo de pandemia conseguirá nos convencer a mudar o ângulo de visão. A tal ponto de que o nosso bem seja mais importante do que a impressão a causar nos outros.

