Nos meus primeiros anos de escola experimentei um período de paralisação das aulas. Não era greve de professores. Naquele tempo nem se imaginava uma coisa dessas. Não teve nada a ver com vírus ou com outros desastres. A paralisação estava ligada à crise de legalidade, antes da posse de João Goulart na Presidência da República.
Eu era muito criança e nem de longe avaliava a gravidade da situação politica. Só experimentava a maravilha das férias fora de época.
O ritmo da nossa escola era puxado. Mesmo sendo pequenos, pesava sobre nós a disciplina das aulas e a obrigação dos trabalhos de casa – ao menos, era o que eu sentia. Não por acaso, esses trabalhos se chamavam “deveres”. Nossos deveres escritos em caderno ficavam com a professora todos os dias ou quase. Além das tarefas diárias, havia outras que se desenvolviam ao longo do período escolar, como os trabalhos manuais, que deviam ficar prontos para uma grande exposição no final de cada ano. Não dava para esquecer dos trabalhos manuais. Deixar para a última hora, era chamar encrenca. Havia também tarefas de fim de semana e de férias. Ou seja, a sensação de compromisso tinha poucas chances de afrouxar.
Não sei exatamente quanto tempo durou aquela folga. Acho que foram uns dez dias. O certo é que ficaram na minha lembrança como período de liberdade ímpar.
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Bom, então chegamos a estes tempos de pandemia, 2020/2021. Escolas fechadas, muita gente em casa, aulas à distância.
Quem achava que a escola era entediante, quem não gostava da rotina, quem achava que havia obrigações demais deve estar revisando seus conceitos. É capaz que tenha até mudado de opinião. Do mesmo modo que eu certamente teria feito, naqueles verdes anos. O caso é que a folga da chamada legalidade foi muito curta, durou pouco e não deu tempo para outra coisa que a sensação férias.
A alegria dos colegiais de agora se dissipou faz tempo. Ao que tenho ouvido, a maioria acha que a vantagem de estar em casa não compensa. A escola está parecendo mais atraente do que nunca. Os compromissos de estudo passaram a ser associados com liberdade, em vez de levar a ideia de prisão. A rotina, que se achava sufocante, agora é desejada.
Assim chegamos ao ponto de nos perguntar o que a liberdade é. Liberdade é estar preso a uma rotina? Liberdade é estar longe de compromissos?
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Eu tenho pensado sobre o assunto. Chego a perguntar se a liberdade não é mais uma sensação que um fato (claro que não estou falando das pessoas que estão presas na cadeia). Chego a perguntar se a liberdade é um conceito movediço. Ou, se razão tinha o filósofo que tristemente disse: “o homem nasce livre, mas está acorrentado em todos os lugares”.

