
Na minha juventude assisti muitas vezes pessoas procurarem meu pai em busca de conselhos. Com uma paciência admirável, ouvia as queixas de parentes, amigos e, às vezes, até desconhecidos. Com uma sabedora adquirida só até o terceiro livro, como era o sistema da época, sempre dava uma orientação ou buscava compor os litígios.
Às vezes as desavenças e disputas redundavam em agressões físicas, principalmente entre parentes. Quase sempre envolviam questões de vizinhança ou disputa por herança.
Vi isso se repetir muitas vezes, na vida prática e em processos. A ingratidão é altamente condenável, tanto que o próprio Código Civil, em seu art. 555, prevê que a doação pode ser revogada por ingratidão do donatário.
Quase sempre as desavenças familiares decorrem de ciúmes entre irmãos, ou porque entendem que os pais gostam mais do outro, ou porque disputam primazia na distribuição dos bens, desde Caim e Abel.
Ao longo da história vemos as constantes desavenças entre vizinhos, de pessoas ou nações. As disputas quase sempre são territoriais ou por interesses econômicos.
Grandes potências já dividiram entre si a América e a África, dominaram a Ásia e o Oriente Médio. A situação atual entre Israel, Estados Unidos e Irã incluiu outro fator terrível : o religioso.
O Império Persa, fundado por Ciro, o Grande, em 559 a.C., foi a primeira superpotência mundial, estendendo-se por três continentes: Ásia, África e Europa. Localizado originalmente no atual Irã, o império era celebrado por sua administração eficiente, tolerância religiosa e inovações em infraestrutura. Diferente de seus vizinhos, os iranianos não são árabes, mas arianos. Sua língua oficial é o persa (farsi), e eles possuem uma herança cultural distinta, indo-europeu.
A queda do monarca Mohammad Reza Pahlavi, o Xá do Irá, casado com a Farah Diba Pahlavi, pela Revolução Iraniana em 1979, foi o marco que transformou o Irã de uma monarquia pró-Ocidente em uma República Islâmica teocrática liderada pelo Ayatollah Khomeini que governou até 1989.
A crise com os Estados Unidos vem desde que 52 norte-americanos foram mantidos reféns por 444 dias – de 4 de novembro de 1979 a 20 de janeiro de 1981 -, após um grupo de militantes islâmicos tomar a embaixada americana em Teerã, em apoio à Revolução Iraniana, tendo fracassado a tentativa de resgate pelos americanos.
Posteriormente a disputa por território levou à feroz guerra entre Irã e Iraque, na década de 1980, que causou mais de um milhão de mortes.
Sucedido por Ali Hosseini Khamenei, que estava no cargo de líder supremo há 36 anos, até que foi morto na recente operação militar, o Irã era permanentemente inspecionado face à insistência no seu programa nuclear.
A instalação de um regime teocrático pela guarda revolucionária, com regras rígidas e opressão contra as mulheres, afastou o País do mundo ocidental.
A morte de Khaminei pela ação militar Israel/Estados Unidos, com o alegado objetivo de evitar o acesso do Irã a armas nucleares, gerou uma expressiva reação militar contra todos os vizinhos, atingindo inclusive Dubai.
Aeroportos fechados e espaço aéreo restrito afeta a vida de viajantes de todo o mundo. O bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa quase todo o petróleo, pode gerar uma crise global, tanto energética como financeira.
Misturar política com religião nunca deu certo.

