Recebo o convite para organizar um curso envolvendo a arte feita com palavras, isso que também se chama de Literatura. O curso é dirigido a pessoas interessadas em saber por que certas obras ficam famosas e chegam a atravessar os séculos. Mas o objetivo do curso não seria exatamente desvendar os caminhos da fama. Seria conhecer melhor qual o proveito que a gente pode ter ao se aproximar dessa produção.
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Como se vê, o curso passa longe do costume de ensinar coisas que a pessoa nunca chega a captar por que tem de aprender. Neste caso se trata de “arte como vida”, quer dizer, a arte encontrando um lugar na vida real da gente.
O objetivo é bem modesto, mas prático. Em resumo, busca entender como a arte pode nos ajudar. O pensamento básico vem de Mario Quintana quando diz: ”Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte não tem sentido”.
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O curso está dividido em três partes. Na primeira delas trata do tema do sofrimento. Exemplos de textos vão mostrando que o sofrimento faz parte da vida e que muitas coisas tristes ficam ainda piores porque achamos que somos os únicos a sofrer. Quando percorremos uma obra que fala de medo e de solidão, por exemplo, quando refletimos sobre o que ela diz, vamos somando experiências para compreender melhor os males que nos afligem. Vamos aumentando nossas forças para resistir às dificuldades que chegam – sempre chegam.
A segunda parte mostra que a arte pode servir de consolo. Pode ajudar, por exemplo, a recuperar lembranças que aliviam a dor que sentimos em relação às nossas perdas. Pode, por outro lado, reproduzir sensações que nos deleitamos em usufruir, como o gosto das pitangas comidas ao sol. E a arte pode nos alegrar na medida em que possibilita o contato com a beleza na maneira como os assuntos são tratados. Se nossa vida fosse repleta de harmonia, talvez não precisássemos tanto de pausas suaves, essas pausas capazes de nos afastar do que é feio, mau e ameaçador.
A terceira parte do curso se ocupa da ajuda que podemos ter na arte para aprofundar o conhecimento de nós mesmos. Acontece que experimentamos estados de espírito que não reconhecemos bem. Através da experiência relatada em livros, podemos examinar e compreender com mais clareza o que sentimos. Uma parte esquiva e fugidia do nosso pensamento, da nossa experiência, é pega, editada e devolvida a nós melhor do que era antes, de forma que enfim sentimos que nos conhecemos com mais nitidez e podemos nos sentir mais seguros para escolher como viver. E, principalmente, para experimentar mais felicidade.
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Uma questão fica para responder. Qual seria o tamanho do público interessado em passar por uma experiência como esta que o curso está propondo. Apostas e palpites são bem-vindos.

