
Assisti ao filme “Quem quer ser um milionário?” – o mais premiado do ano de 2009, pela Academia de Hollywood.
Estou numa fase de abrir o baú de filmes, livros, lembranças antigas…
“Quem quer ser um milionário?” mostra a participação de um rapazinho pobre, Jamal Malik, num show de TV, um show de perguntas e respostas. Jamal acerta todas as respostas e ganha uma quantia colossal. Tudo esse esforço só para poder reencontrar a garota – Latika – por quem é apaixonado desde menino. Parece um conto de fadas? Parece.
Mas o filme é bem mais complexo do que o enredo assim resumido faz crer. O espectador tem de ficar atento, por exemplo, para compreender que a sequência da história não é cronológica. O passado e o presente vêm misturados, um plano explicando o que acontece no outro. Fora isto, o desafio principal – em que o filme leva dez com louvor – é mostrar de uma forma aceitável como é que um rapaz favelado consegue responder perguntas complicadas, num show de TV que já derrubou sábios de todos os tipos.
Jamal Malik não é um gênio, não vive grudado em livros, ele simplesmente usa o talento que tem para buscar seu destino (muito de acordo com a cultura indiana que aceita com naturalidade a noção de destino). Mas, atenção, destino não é igual a fatalidade (nem na Índia nem no filme). Destino é algo que o homem produz. No caso de Jamal Malik, o destino é criado pela obstinação. Sob nenhuma hipótese Jamal desiste de encontrar Latika, a amada. No show, o rapaz sabe a maior parte das respostas por acaso e as cenas buscadas na infância mostram como ele aprendeu isso ou aquilo. Como regra, estas são cenas de violência e de dor, bem de acordo com o ambiente da favela mais miserável. Já as respostas que Jamal não sabe, ele adivinha. Adivinha certo e assim encaminha a história para o final feliz, que todo mundo gosta de ver.
O filme tem um desfecho bonito, mas, de novo, não é um conto de fadas. Também não foi feito para dar lição de moral – nem é para isto que existem os filmes. De todo modo encoraja conclusões bem bacanas. Por exemplo: (um) a favela é horrível, mas isto não quer dizer que seus habitantes sejam necessariamente bonzinhos; (dois) violência e vaidade existem por todos os lados e têm efeito nefasto; (três) melhor desconfiar de destino como roteiro traçado nos céus. Sorte boa é coisa para fazer à mão como se fosse um bordado, só que agarrando o touro pelas guampas – se é que me entendem.

