
Esta é uma história conhecida. Eu mesma já a contei aqui. Mas parece hora de contar de novo. Talvez agora faça ainda mais sentido.
A história aconteceu na Itália, na corte do rei Dionísio de Siracusa, Sicília. Havia ali um rapaz chamado Dâmocles. Dâmocles era jovem e cheio de ambição. Invejava o rei Dionísio com todas as forças. Invejava o poder, invejava o fausto da corte, invejava os prazeres disponíveis. Ah! Se também pudesse desfrutar essas delícias! Não havia um desejo de Dionísio que não fosse atendido. Dionísio vivia cercado de admiradores (ou seriam aduladores?) prontos para obedecer. E não bastasse tudo, havia as raparigas em flor e rapazes lindos à disposição do rei. Dâmocles achava que nada neste mundo poderia ser melhor do que estar na pele de Dionísio.
Para espanto dos cortesãos, Dionísio se dispôs a emprestar o trono pelo espaço de um dia. Isso mesmo. Durante um dia inteiro, Dâmocles conheceria as delícias do poder.
As sonhadas 24 horas começaram com um jantar. Dâmocles foi recebido com um banquete fabuloso. Tudo era melhor ainda do que ele imaginara.
Mas eis que, quando ergueu os olhos, viu. Viu uma descomunal espada pendente do teto sobre a sua cabeça. A espada estava suspensa por um fio de crina de cavalo. Menos do que um sopro faria a espada despencar. Dâmocles se aterrorizou com a visão da espada. Desinteressou-se do banquete, da música, dos admiradores, dos acompanhantes… Num pulo devolveu a Dionísio o trono e chispou como um raio porta a fora.
Nos últimos tempos a movimentação política tem mostrado que a história de Dâmocles permanece atual. E por dois motivos, ao menos.
Primeiro: o poder fascina. O poder é quase irresistível. É por isso que a fila dos Dâmocles não para de crescer. Há uma multidão de pretendentes a ocupar o trono de Dionísio – qualquer que seja o Dionísio da hora e qualquer que o trono seja. Vale cotovelada, vale empurrão, vale puxação de tapete, vale o que for preciso para chegar lá ou para se segurar lá.
Segundo: quem senta no trono está menos garantido do que gosta de imaginar. O poder que os poderosos tem é frágil. A espada, que a qualquer momento vem abaixo, mostra que o poder está sempre por um fio, pode virar uma arma, quando menos se espera.
Ou seja, não é por acaso que a expressão “espada de Dâmocles” volta e meia entra na conversa, tantos séculos depois. As delícias do poder são um fato. A gana pelo poder é um fato. A espada sobre a cabeça do rei é um fato.

