Minha família se mudou para a cidade de Arroio do Meio em 1958, um pouco antes de se completarem 24 anos da criação do município. Na época nenhuma rua tinha qualquer tipo de revestimento, a não ser cascalho. Aliás, cascalho era considerado um revestimento valioso. Amenizava a poeira em tempo seco e diminuía o barro em dias chuvosos.
O mês da nossa chegada foi agosto, uma altura do ano em que se podem esperar chuvas, até enchentes, mas não lembro de haver barro, quando o caminhão da mudança encostou diante da casa. E ainda bem, porque nessa altura caminhões de carga é que botavam a mudança e as pessoas na carroceria e faziam o transporte sem outra preocupação que não fosse a chuva. Naqueles primeiros tempos, me lembro do movimento de carroças, de charretes e de cavalos. Passaria por maluco quem previsse que um dia uma vaga de estacionamento na rua principal se tornaria quase objeto de disputa.
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Em 1958, a maior parte da população de Arroio do Meio morava no interior. Interior incluía os vilarejos que se tranformaram mais tarde nos municípios de Nova Bréscia, Pouso Novo, Travesseiro, Capitão e Coqueiro Baixo. Faltava muito para chegar ao ponto atual, quando só um quarto do pessoal resiste na colônia. Na época não daria para dispensar os ônibus que faziam com bravura a ligação diária com Nova Bréscia e Pouso Novo, por exemplo.
Quanto tempo levava uma viagem dessas? A resposta não é fácil de ser dada. Tudo dependia do número de paradas para subir ou descer gente e do tamanho dos arroios que tinham de ser atravessados. Em todo o caso, ninguém passava fome no caminho. O costume era enfrentar as horas de viagem com o auxílio de galinha com farofa, calça virada, doce de massa, rapadura, caramelos. A mala dos viajantes podia ser magra, mas o farnel fazia bonito.
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Em 1958 não tinha um único aparelho de TV em Arroio do Meio, acho que não tinha. Mas na década de 60 eles começaram a chegar com muito estardalhaço. Mesmo que alguém quisesse fazer segredo de que estava adquirindo a novidade – fosse por discrição mesmo ou para desencorajar os bandos de vizinhos que passariam a partilhar a programação noturna – não tinha jeito. A monumental antena colocada no telhado imediatamente denunciava o comprador.
Sobre computadores não havia notícia alguma. Ninguém nunca tinha ouvido falar em computador, muito menos eu que, agora mesmo, vou consultar a internet para ver se Arroio do Meio circula pelo mundo web. Pois sim, e como! Só o Google me oferece cerca de 500 mil referências. Vê se pode!
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O que o futuro vai trazer eu nem consigo imaginar. Mas espero que esta terra continue “formosa e gentil” – do jeito que vem sendo desde o início, como bem proclama o nosso hino.

