Passei alguns dias de férias em Montevidéu e fiquei me perguntando por que este destino ainda está longe de ser rotina nas folgas dos gaúchos. A viagem leva mais ou menos o mesmo tempo que uma ida a Tramandaí, se contarmos o deslocamento rodoviário a Porto Alegre e, de avião a Montevidéu. O preço tampouco seria motivo, pois passagens de avião podem custar menos do que de ônibus para igual distância.
A explicação fica, quem sabe, por conta do receio de se virar fora do Brasil. Querendo ou não, vizinho ou não, o Uruguai é o estrangeiro: fala outra língua, tem moeda diferente e não assiste à TV Globo.
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Entender o espanhol é fácil e os uruguaios são simpáticos com os visitantes. Não esnobam nosso portunhol. Pelo contrário, fazem de tudo para entender e atender bem. Sabem que o turismo traz um dinheiro que não viria de outra fonte, já que a indústria do país é fraca e a pecuária sofre a concorrência dos vizinhos poderosos. Claro, aquilo que nós festejamos como vantagem eles sofrem ao revés. Li no jornal sobre a quase humilhação que representa a entrada de carne suína e de frango procedente do Brasil e da Argentina. Isso que ninguém falou nos ônibus Marcopolo que circulam na cidade, nem nas facas Tramontina presentes nos churrascos, muito menos na erva-mate Canárias, produzida aqui em Encantado e que, no aeroporto pode custar dez dólares o quilo…
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O Uruguai não está exatamente uma barbada para os brasileiros. Nossa moeda vem perdendo valor não apenas frente ao dólar, coisa que se nota logo ao sentar à mesa. Comer em restaurantes pode ser mais caro do que no Brasil. Mas, o fato é que a cidade é limpa e segura e isto vale quanto? Montevidéu, aliás, se inclui entre as cidades mais seguras do mundo.
Que alívio desfrutar a rua sem medo! Que maravilha passear como fazem os pais com as crianças, os casais e os solitários! Como eles, parar aqui e ali, especular as peças de artesanato, olhar vitrines, sentar num banco de praça, conferir a marca dos carros que trafegam, ver gente simplesmente.
Isto mesmo. Quanto vale poder acompanhar a vida ao vivo, sem temer que arranquem nossa bolsa, nos derrubem e ameacem nossa vida?
Tão bom isso que ainda deu direito a um bônus extra.
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Foi assim: eu caminhava do jeito que descrevi acima, quando comecei a ouvir o som de um tango. Cheguei perto. Pessoas sentadas nos bancos da praça e em cadeiras levadas de casa admiravam casais dançando, ali mesmo, quase no passeio público. Soube depois que os dançarinos vão para a praça, como nós vamos no bailão da Margarida. Aos sábados, quem quiser, vai dançar na praça. Em geral, são pessoas de mais idade que sabem dançar tango e não se intimidam com a plateia de curiosos.
Parei para olhar também. Era lindo, lindo!
Anoitecia em Montevidéu e os casais dançavam. Quando vi, lá estava também eu dançando, dançando um pasodoble em plena praça, sem vergonha e sem receio. Desfrutando também eu o presente inesperado: dançar na rua e rir, compartindo o espaço da cidade, enquanto a noite recolhia docemente a luz da tarde.

