Dizer que a educação é capaz de transformar nosso país virou quase uma fórmula: todo mundo se acostumou a repetir como se fosse um mantra. Arremata bem tanto um discurso de campanha como as discussões sofisticadas. Cai como uma luva, igualmente, nas conversas em torno de uma mesa de cerveja.
Seja onde for, é bom falar e bom de ouvir que a educação pode salvar a pátria. No mínimo, indica que saída existe.
Por outro lado, não é tão bom assim. Educação é um tema amplo e nunca fica bem claro quem vai girar a manivela para botar a solução em marcha.
Se é o governo, sabemos de antemão que pode demorar muito. Aquilo que depende de investimento público tem futuro incerto. Quando demanda reformas mais profundas, é complicado. Aí podemos esperar sem pressa: tem eleição quase a cada ano e ninguém é louco de contrariar ninguém em ano de eleição.
Se a manivela está na posse das famílias, paciência. Estamos suficientemente informados de que a organização familiar vive uma crise até de identidade. Os pais, quando há, consomem a energia disponível no afã de ganhar a vida. Entregam seus filhos para a escola, exatamente por confiarem que é a instituição mais preparada para se encarregar do assunto.
Se a manivela é deixada na mão da escola, a coisa não fica tão segura como pode parecer. Aliás, ninguém faz segredo do panorama de carências. No seu conjunto, a escola está defasada em relação aos dias que correm. Os professores encontram dificuldade para se atualizar e, definitivamente, não há recursos para fazer muito mais do que o que vem sendo feito.
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Talvez a questão de quem educa pode se aclarar na comparação com este surto de mosquitos que nos aflige atualmente. Quero dizer, a solução para um problema segue a mesma lógica que vale para o outro: ou todos ajudam a resolver ou não existe solução. Assim: mesmo que o governo quisesse, não teria como inspecionar um por um os vasos de folhagem existentes no país para ver se encontra água parada, criatório de mosquitos.
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Pois bem, voltemos ao começo. Quem vai se encarregar de fazer a educação capaz de transformar nosso país?
A resposta é uma só: todos.
O motorista, por exemplo, que, ao respeitar os sinais de trânsito, ensina isto para o filho e para os demais na estrada.
O rapaz que, ao jogar o papel no lixo, oferece o exemplo bom a quem está passando por ali.
O servidor público que serve o público efetivamente e com isso dá lições de responsabilidade.
Etc., etc., etc. (falta espaço para continuar a lista, que inclui, claro, cada um de nós).
Resumo da ópera: ou todos ensinam, seja qual for a atividade ou o lugar em que se encontrem, ou nunca existirá educação capaz de salvar coisa nenhuma.

