“No” (“Não”, em português) é o título de um filme chileno. Conta uma história passada no ano de 1988. Foi assim: após 15 anos como ditador do Chile, Augusto Pinochet convoca um plebiscito para perguntar à população se deveria continuar por mais oito anos ou não. Pinochet estava certo de que o Sim venceria, caso contrário não teria se submetido ao teste.
A campanha inicia. A TV reserva um espaço diário de 15 minutos para o Sim e outros 15 minutos para o Não. Aí é que entra a figura do publicitário René Saavedra – no filme representado pelo excelente ator mexicano Gael Bernal. Saavedra assume a campanha do Não, travando primeiro uma briga com seus companheiros. Estes querem utilizar o espaço para denunciar as atrocidades cometidas por Pinochet. Saavedra pensa diferente. Ele trata a campanha como um produto que deve ser vendido com técnicas aplicadas à publicidade.
O pensamento de Saavedra acaba sendo aceito. Escolhe-se o humor como estratégia principal. Quem está no cinema tem oportunidade de rir muito acompanhando a propaganda, tal como aconteceu de verdade com os eleitores chilenos. Resultado: o Não vence com 56% dos votos, dando fim à ditadura chilena.
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A decisão de René Saavedra é sintomática de uma época que estava começando: campanhas políticas passavam a ser tratadas como uma operação comercial. E os publicitários, a atuar como craques de meio de campo, articulando as jogadas, distribuindo a bola, fazendo lançamentos. A eles cabe, praticamente, decidir a partida. No Brasil, também somos testemunhas desse processo.
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Vamos juntar o filme “No” com os acontecimentos do cenário político atual e teremos dois pontos para matutar.
Primeiro: qual a influência do chamado marketing político nas decisões que nós tomamos – aparentemente por conta própria?
Segundo: como se formam as nossas crenças e as nossas esperanças, de um modo geral? O quanto elas vão sendo delineadas a partir de fora, em vez de vir brotando de dentro de nós? Vale juntar aí outra indagação: o quanto temos copiado as modas – em todos os setores da vida: vestuário, mobília da casa, destinos de férias e ideias – simplesmente copiado?
O quanto copiamos automaticamente, sem avaliar com sinceridade o que melhor combina com o nosso gosto e com nosso coração?

