O título acima vem emprestado de um livro que me deram de presente. Trata-se de uma coletânea de dez reportagens publicadas entre os anos de 2000 e 2008 na revista Época. A autora é Eliane Brum, uma guria nascida em Ijuí que hoje vive em São Paulo. Depois de cada uma das reportagens, a autora junta um comentário feito especialmente para sair no livro. Nesses comentários ela fala das suas escolhas, sustos, dilemas e erros na condução do trabalho. “Para cada reportagem há uma reflexão sincera, vísceras à mostra, sobre o que fiz e vivi – como repórter, como gente”, diz Eliane na Apresentação.
“O olho da rua” é desses livros que a gente lê com imenso interesse e com sofrimento, ao mesmo tempo. Um livro que mobiliza a compaixão e a curiosidade, em doses parecidas. É um negócio! Não dá para interromper a leitura e a gente não quer continuar, para que o livro não termine nunca. O que está contado ali apalpa tão fundo a condição humana que, às vezes, ler se torna muito dolorido, quase insuportável.
Os temas são variados. Algumas reportagens focalizam a Amazônia, com garimpeiros, com parteiras, com índios, com migrantes. Outras, aspectos da cidade grande. Neste caso, o cenário pode ser uma favela e esses meninos que as mães criam para “morrer de morte matada” ao redor dos vinte anos. Pode ser um asilo para velhos. Também pode ser, como na última reportagem, a enfermaria de um grande hospital, uma dessas enfermarias que acolhem os doentes que não é mais possível curar, apenas cuidar. (Apenas?)
*******
A primeira reportagem do livro mostra o trabalho das parteiras na Amazônia. Essas mulheres interpretam a hora de nascer de um modo próprio. Elas não compreendem, por exemplo, a ligação entre nascimento e hospital. No meio da floresta, o parto é uma festa. Uma festa feminina. As mulheres vêm de todo o lado, se reúnem na casa, contam causos, tomam café, fazem mingau. Acariciam e massageiam a parturiente. Riem e rezam. Quando veem, “lá vem menino escorregando pro mundo”.
*******
A reportagem sobre um asilo no Rio de Janeiro cai como um soco. Eliane mostra a divisa: o mundo do lado de dentro; o mundo do lado de fora do portão da casa. Os velhos atravessam a divisa com “a vida inteira espremida numa mala de mão”. Quem entra, entra para não mais sair e, em geral, não vem por vontade própria. Vem por que lá fora não tem mais ninguém que o queira.
******
“Olho da rua” é um livro que relata sofrimentos, mas não só isso. Fala de esperança, de afetos e delicadezas. Ensina a não querer compreender rápido demais as coisas. Ensina a sentir mais, a prestar mais atenção ao que está à volta, bem ali, no “olho da rua”.

