Há alguns anos caí na malha fina da Receita Federal.
O fato era até previsível. Acontece que tinha passado por problemas de saúde e, por isso mesmo, acumulado uma pilha de recibos de despesas, os quais estavam devidamente arrolados na minha declaração de renda. Seriam, talvez, uns trinta documentos, não lembro exatamente.
Ao que dizem, os programas da Receita estão ajustados para farejar irregularidades. Se parece haver contas excessivas, como esta das despesas médicas, soa um alarme e a investigação provavelmente será desencadeada.
Foi o que passou comigo.
Recebi a devida notificação e tive de encarar a apresentação de informações adicionais. O caso culminou com a exigência de levar cópia autenticada de todos os comprovantes de despesas e ir pessoalmente me acertar com o agente no escritório da Receita. Ali, juntos percorremos um por um os documentos que eu levava. Confesso que fiquei quase comovida com o zelo do funcionário encarregado do processo.
Soube depois, que os profissionais de saúde que me atenderam passaram por igual trajeto.
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Como eu não tinha inventado nada, o desfecho do caso foi feliz – fora, claro, o transtorno de reunir documentos, pagar autenticações, marcar hora na Receita e esperar na fila até poder mostrar os recibos das contas que eu pagara ao longo do tratamento de saúde.
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Se o exemplo vale, cheguei à conclusão que a Receita tem meios para rastrear gastos, fazer cruzamentos e certificar-se de que tudo está conforme.
E não se meta uma professora a querer lograr o fisco…
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Não estou contando esta história para me queixar da sorte. Mesmo aborrecida com as tarefas de defesa, fiquei admirada com a eficiência do processo. Havia todo um aparato funcionando para defender o erário público e isto é notável num país que namora, noiva e casa com a negligência e o descompromisso.
Estou contando a história para partilhar o meu assombro.
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É assim. Tendo experimentado o zelo com que meu caso foi tratado, não posso compreender que se roubem as fortunas que se roubam nas nossas estatais, nos contratos do governo, nas licitações públicas, etc. como se não houvesse meio de enxergar desvio algum.
Se existem condições para apertar o laço sobre as despesas médicas de uma modesta professora, como é que faltam condições para lançar a rede onde a pescaria é sabidamente farta?
Ou será que a energia se esgota na cata dos piolhos – para o melhor sossego dos gatões?

