O famoso escritor peruano Mario Vargas Llosa conta uma experiência que viveu anos atrás. O acontecimento – que é reproduzido abaixo – serviu para fazê-lo pensar sobre o fenômeno que o filósofo Isaiah Berlin (1909 – 1997) chamou de “verdades contraditórias”.
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A experiência de Vargas Llosa foi a seguinte: quando era um jovem repórter, Llosa acompanhou um grupo de antropólogos numa expedição pela selva peruana na região amazônica. Viajaram até os fundões, onde viviam tribos em condições semelhantes às da Idade da Pedra. Na pequena localidade de Santa Maria de Nieva tiveram oportunidade de visitar uma missão religiosa que ali se instalara na década de quarenta.
A missão era dirigida por freiras estrangeiras que se dedicavam a evangelizar meninas das tribos vizinhas. As meninas aprendiam a ler e a escrever e também aprendiam prendas domésticas. Como as garotas não queriam viver no internato nem frequentar escola nenhuma, eram levadas para a missão com a ajuda da Guarda Civil.
A maioria dessas meninas, depois de passarem algum tempo na missão, perdiam todo contato com seu mundo familiar e não conseguiam retomar à vida de onde haviam sido retiradas.
O que acontecia com elas, então?
Então, as meninas eram confiadas aos representantes da “civilização” que passavam por Santa Maria de Nieva, fossem engenheiros, militares, comerciantes, os quais as levavam como empregadas domésticas para as cidades.
O drama maior – continua Llosa – era que as missionárias não só não atinavam para as consequências de toda aquela operação como também, para realizá-la, davam provas de verdadeiro heroísmo. As condições em que as freiras viviam eram difíceis, e seu isolamento era quase total nos meses de alta dos rios. Deviam sentir muita falta da vida que tinham deixado na Europa.
O mais chocante de tudo era verificar que, com as melhores intenções do mundo e à custa de um sacrifício sem fim, as freiras podiam causar danos tremendos.
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Aquela experiência pode ensinar o quão movediça é a linha que separa o bem e o mal. Pode ensinar, igualmente, a prudência que se faz necessária para julgar as ações humanas e para decidir quais são as soluções adequadas para os problemas sociais, quando se quer evitar que os remédios resultem em algo mais nocivo do que a própria doença – conclui Vargas Llosa.
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Meu objetivo ao contar este caso é dar combustível para pensar. Pensar é importante.
Na vida real, se o que a gente enxerga são “verdades contraditórias”, o melhor é puxar o nó dos enganos e ajudar a estabelecer verdades mais harmoniosas.

