Os festejos da Semana Farroupilha acontecem numa altura boa do ano. Ficam situados bem no meio, entre a friagem maior do inverno e os talagaços do calor que há de vir mais tarde.
Por isso mesmo, coincide com a profusão de flores nos quintais das casas e a gauchada tem aí uma razão a mais para se animar na festa.
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Eu aproveito a hora para visitar o repertório de canções antigas. Essas que ajudam a compor a cena em que germina o sentimento de ser aqui do sul.
Ouvindo as melodias familiares, me dou conta de como são dramáticas as letras. Parece que a sensação de perigo continua presente, tanto tempo depois do fim das lutas contra os castelhanos e os imperiais e continua presente, mesmo que não haja perigo de combates novos.
Nossas canções abrem espaço para a tensão e o conflito, talvez até mais do que para a curtição campeira. Descontados casos como o Hino ao Rio Grande, de Simão Goldman, aquele que diz que “o gaúcho quer cantar a querência, o céu azul, os verdes campos e o mar”, mais comum é falar de duas outras coisas: de tristezas ou de valentia e briga. No caso das tristezas, vale lembrar o inesquecível “coração de luto”, do Texeirinha. No caso da briga, o gaúcho gosta de repetir que “não podemo se entregá pros home”, ou então avisa que, se alguém pisar no pala, a reação vem num zás-trás e o chicote estala.
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Pouco aparecem as canções de amor bem realizado. Predomina a melancolia e o desencontro. É o caso da conhecida história com Mariana, uma guria de faca na bota. A coisa seria engraçada, se a moça não mostrasse as garras e levasse o companheiro a se safar, repetindo e repetindo “adeus, Mariana, que eu já vou embora”.
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Enfim, uma dúvida. Será que é a nossa aura de durão o que inspira os cantadores? Ou, olhando do outro lado: será que é a cantoria áspera que ajuda a delinear este jeito – antes taciturno que gaiato – da nossa gente aqui do sul?

