Aquarius é o nome da loja da Hering em Arroio do Meio. Mas não é deste Aquarius que quero falar. Aqui estou me referindo ao título do filme do diretor Kleber Mendonça Filho, que estreou no Brasil há uns dois meses.
O filme é uma produção franco-brasileira e tem levado muita gente ao cinema. Nos primeiros quatro dias em cartaz teve um público de 54 mil pessoas. Depois, já não sei. Uma parte do interesse se deve ao barulho que o elenco fez aproveitando os holofotes da estreia mundial no festival de Cannes, em maio último. Na ocasião os artistas protestaram ruidosamente contra o processo de impeachment que se desenrolava no Brasil àquela altura.
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Resumidamente, Aquarius conta a história de Clara, a proprietária de apartamento em um prédio situado defronte para o mar, num dos melhores endereços de Recife. Todos os demais moradores já venderam seu imóvel para a construtora que planeja construir ali um edifício grande e moderno. Sucede que Clara não quer vender seu apartamento. Ela não se deixa seduzir pelas vantagens que um imóvel novo poderia ter, nem pela polpuda oferta em dinheiro. Quando todas as tentativas se mostram infrutíferas, a construtora resolve apelar para a ignorância. Clara terá de sair de casa por bem ou por mal.
O filme inteiro se desenrola entre as razões que Clara tem para não querer se mudar (as recordações, o valor sentimental, o costume) e a pressão da construtora.
Embora pareça simples, Aquarius é um filme complexo. Fala de vizinhança, de sociedade, de família, de afeto, de sexualidade, de conflitos. Mostra relações assimétricas que se estabelecem: na casa de Clara, é a relação patroa-empregada, mãe-filhos; fora, é mulheres-homens, Clara contra a construtora. Reduzir o filme à luta entre o bem e o mal (Clara, de um lado; a construtora, do outro) parece insuficiente.
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A atuação de Clara – Sônia Braga – é excelente. Alguns críticos estão dizendo que aí está o melhor filme da longa carreira da atriz. A trilha sonora também é de qualidade superior. Mas, para mim, o que mais impressiona é o final. Refiro-me à cena, em que Clara resolve fazer justiça com as próprias mãos. Ela devolve a violência de que se sente vítima com a violência de que é capaz, causando estrago na bela sala de reuniões da construtora.
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Não sei o que as plateias de outros países estão pensando do desfecho. Provavelmente, vão achar meio selvagem. Mas os brasileiros adoram. E nossa aprovação a este tipo de reação ajuda a mostrar o modo como nos relacionamos em sociedade.
Para nós ainda está valendo a fórmula do “quem pode, pode e quem não pode se sacode”. Ou melhor: quem pode aproveita e quem não pode espera a hora de dar o troco – ou de aproveitar também. E o troco parece perfeitamente legítimo, mesmo quando tem o nome de vingança.
Este é um arranjo primitivo, não exatamente motivo de orgulho. Era até de esperar que já tivéssemos superado esta maneira de equilibrar a gangorra nas relações em sociedade. Ou seja, seria melhor se a gente acreditasse mais numa vida com justiça.A

