Mais ou menos na metade do século XVI, lá por 1550, foi escrito um livrinho intrigante. Trata-se do “Discurso da servidão voluntária”, de autoria de Étienne de La Boétie (1530 – 1562).
Pode parecer que algo tão antigo não teria nada a ver conosco. Só que tem.
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Étienne observa os governantes da sua época e os compara com os que vieram antes. Como regra são tiranos. Faltava muito tempo ainda para os princípios democráticos se espalharem pelo mundo.
Étienne acha espantoso o fato de que os tiranos tenham um poder de vida e morte sobre seus subordinados e, mais ainda, se espanta com o fato de que os tiranos só gozam deste poder porque os subordinados se sujeitam. Ou seja, os escravos são escravos voluntariamente.
Explica: como os subordinados se contam aos milhares e o tirano é apenas um, eles poderiam muito bem deixar de obedecer. Se parassem de servir ao tirano, este desapareceria. Para tornar a ideia mais clara, traz a comparação com o fogo. Não é preciso jogar água para apagar o fogo – diz. Basta não colocar mais lenha. Não tendo o que o alimente, o fogo acaba se extinguindo por si mesmo. Coisa parecida acontece com um galho de árvore – acrescenta Étienne. Se ficar isolado da planta, o galho perde a seiva que o alimenta e morre.
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Poucos bens são tão preciosos como a liberdade. A liberdade possibilita a cada pessoa inventar a forma como quer viver a própria vida.
Não obstante o alto valor da liberdade, continuam existindo numerosas formas de escravidão hoje em dia.
Dá quase para pensar que a liberdade assusta ao ponto de preferirmos voltar-lhe as costas…
É assim. Com facilidade deixamos outros decidir por nós. Com facilidade nos pegamos vestindo roupas que nos dizem estar na moda; nos vemos comendo comidas que a propaganda divulga; nos vemos comprando objetos que de fato não fazem falta. Chegamos ao ponto de não saber se assistimos a um programa de TV por alguma outra razão, além de que todo mundo assiste… Fazemos coisas simplesmente por que achamos que é isso que esperam de nós.
Ou seja, de certo modo, somos servos voluntários. Quer dizer: por nossa própria vontade aceitamos embarcar na onda que interessa a outros.
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Neste conjunto se pode acrescentar mais uma questão.
Quando paramos para refletir sobre a pesada opressão exercida sobre as mulheres, podemos fazer também uma pergunta. Quanto a população oprimida colabora – seja por ignorância, seja por fraqueza, seja por desânimo ou por comodismo, etc. – mas quanto colabora para alimentar a opressão de que é vítima?
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O que aconteceria, se parássemos de colocar lenha no fogo – como falou Étienne de La Boétie?

