Um rosário de notícias sobre falcatruas vem martelando nosso cotidiano. O estrago é maior do que pode parecer.
Há efeitos colaterais pesados.
Estamos ficando saturados do assunto antes mesmo de chegarem soluções mais consistentes. Vamos entrando numa espécie de estado de hibernação. É defesa contra a impotência e o desamparo. Em vez de gritar reclamações, a tentação é virar para o lado, mudar de assunto, fazer que não temos nada a ver com isso.
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Já sabemos que não dá para tirar da sala as crianças sempre que a matéria vem à tona. Por isso mesmo, cabe perguntar qual é o conceito de vida em sociedade que a gurizada está formando na cabeça.
Será que estão chegando à conclusão de que o crime premia e recompensa? Será que vão acreditar que vale a pena pensar no bem comum sem parecer trouxa?
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Por maior que a tentação seja, desanimar ajuda pouco. E, de fato, nem tudo está perdido.
Procurando, a gente encontra notícias boas.
Exemplo 1: na semana passada apareceu um estudo com os últimos dados sobre a inadimplência no Brasil. Ali, Fernanda Monnerat, diretora do Serasa Consumidor, mostra que a região sul (RS, SC e Paraná) é a que melhor cumpre com as obrigações. Comparativamente, os índices de inadimplência são: no Sudeste, de 45,2%, no Nordeste, de 25,2%, e no Sul, 12,8%.
Eis aqui um comportamento para festejar. Pagar as contas é sinal de lealdade que vai além do ato em si. Tem a ver com o valor que a palavra dada tem e se estende para os contratos em geral: cumprir horários, respeitar prazos, entregar o prometido. Etc.
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Exemplo 2: jornal mostra reportagem sobre a Escola Estadual de Ensino Médio Santa Clara. Ela mantém um projeto de educação ambiental que envolve os alunos e as famílias. A comunidade faz a separação de resíduos em casa e a escola atua como ponto de coleta. O produto da venda de materiais é investido em melhorias na escola e em passeios dos alunos.
É ou não é motivo para soltar foguete?
Separar o lixo em casa pode ensinar uma porção de coisas. Ajuda a prevenir o desperdício; chama a atenção para o exagero das embalagens descartáveis; mostra que há resíduos com valor e outros que podem causar danos. Etc.
Treinar a separação do que é joio e do que é o trigo vale como lição de vida.
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De quebra, enquanto treinamos com os lixos, vamos aprendendo a separar o papo firme da canoa furada. Se tudo der certo, acabaremos craques em distinguir os políticos verdadeiros dos demagogos e dos aproveitadores.

