Em Inimitável, Nando Reis canta assim: “Se vamos todos morrer, então vamos tratar de viver.”
Ainda que pareça contraditório, é fato que a morte ensina o valor da vida. Se o tempo é limitado, cabe “tratar de viver”, ou seja, aproveitar cada momento. Viver intensamente parece a melhor saída para encarar nossa angustiante finitude.
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Mas aí é que são elas.
A frase de Nando Reis pode levar a entender que dá para atravessar a vida assobiando. Pode parecer que o cantor estaria incentivando o alto astral. Algo na linha de gostar de tudo o que se apresenta e, se a gente não gosta, é por que não está sabendo viver.
Mas o dia a dia é diferente – ao menos comigo.
Frequentemente me pego enfrentando horas aborrecidas: salas de espera; burocracias; tarefas das quais gostaria de escapar e não vejo jeito. Isto, sem falar nos dias amargos, em que dá tudo errado; nas horas consumidas com preocupações e remordimentos. E olhe que nem estou botando na lista, a dor pura e simples.
Como é que a gente faz para “tratar de viver”?
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Talvez o jeito seja alargar um pouco o sentido da palavra viver, para ali caberem também as horas sombrias.
Assim, chatear-se, sofrer, chorar podem entrar na conta do “tratar de viver”, tanto como os bons momentos. A face menos luminosa da vida é tanto vida como as horas de sucesso e deleite. Aproveitar a vida é também reconhecer o lugar do sofrimento – por menos que a gente goste.
O pernambucano João Cabral de Melo Neto, escreveu um poema dizendo assim:
O que vive fere.
O homem,
por que vive,
choca com o que vive.
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Entendo que João Cabral usa a palavra ferir para dizer muitas coisas. Ferir pode ser machucar, incomodar, atrapalhar, mexer, etc. As coisas vivas andam em ritmo próprio, por isso podem se desencontrar, podem se chocar, produzir feridas.
Se “o que vive fere”, resta pouco a fazer para além de aceitar.
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Vai ver que estou tentando arranjar um consolo para a imperfeição que é inerente à vida. Sim, a gente gostaria de ter residência permanente na Ilha de Caras. Sim, a gente gostaria de ter alegria o tempo todo. Já que não dá, arranja saídas.
A minha, é esta: convocar João Cabral para falar da dor de forma mais jeitosa do que eu consigo falar.

