Vamos fazer um teste.
A) Primeira situação: você comprou um ingresso caríssimo. Vai assistir ao show de uma banda internacional. Pagou, digamos, R$ 500.
Agora, à medida que a apresentação acontece, você vai murchando. Que decepção! Como é que pode? Pagar uma fortuna e isso? Tudo é ruim: o astro da banda mandou um substituto; a qualidade do som é péssima; as acomodações, um desastre. Você se vira para o companheiro e convida. Vamos embora!
– Ficou louca? Nem pensar – ele responde. Não vamos jogar fora dinheiro. Já esqueceu de quanto pagamos pelo ingresso?
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B) Segunda situação: você ganhou num sorteio dois ingressos para assistir à tal banda internacional. O ingresso era caríssimo, mas você entra de graça. Você é um cara de sorte, a vida é bela. Agora, à medida que a apresentação acontece, você vai murchando. Que decepção! Como é que pode? Tudo é ruim: o astro da banda mandou um substituto; a qualidade do som é péssima; as acomodações um desastre. Você se vira para o companheiro e convida. Vamos embora!
Alguma chance de ele concordar e vocês irem embora agora mesmo?
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Se vocês forem parecidos com todo o mundo, é bem possível que levantem e saiam antes de o espetáculo acabar, apenas na segunda situação. Afinal, um vai dizer para o outro, o ingresso não custou nada. Pra que ficar aqui se irritando e perdendo tempo?
No livro “A arte de pensar claramente”, o autor Rolf Dabelli traz exemplos como este, para mostrar como é frequente a gente pensar errado. Se o show é irritantemente ruim, você tem todo o direito de virar as costas, tendo pago pelos ingressos ou não. É uma bobagem ficar se amarrando por causa de uma despesa que, de qualquer maneira, já foi feita e não tem como ser recuperada.
A mesma coisa vale para aquela porção de sobremesa que você come, mesmo sem vontade, só por que é pena botar no lixo…
Um entendimento parecido, por incrível que pareça, se aplicou à guerra do Vietnam. Os americanos prolongaram sua permanência no campo de batalha com o argumento de que “depois que tantas vidas serem sacrificadas e tanto esforço investido, seria um crime desistir agora” e foram mandando cada vez mais gente para a guerra e gastando cada vez mais dinheiro.
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Na maioria dos casos, explica Rolf Dobelli, somos enganados pela vontade que temos de ser coerentes. Aprendemos que é preciso concluir aquilo que começamos. Não queremos abandonar uma canoa, mesmo que esteja furada. Queremos mostrar que não somos vira-casaca.
Pode ser elogiável não abandonar nossos projetos antes do fim. Desde que valham a pena. Se verificamos que a coisa não está dando certo e que não vai nunca dar, é muito mais inteligente saltar fora e o quanto antes.

