Lá se vai uma distância enorme entre o ponto de contratar alguém para tirar nosso retrato e isto que temos hoje, quando cada um se fotografa mesmo.
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Anos atrás, imortalizar-se numa imagem – a fotografia – não era coisa para todos. Tinha de ir no ateliê de especialista. Era um acontecimento, que se daria poucas vezes ao longo de uma vida. Valia enfeitar-se para a ocasião. Da pose, estudada com cuidado, resultariam cópias para distribuir entre amigos, parentes, namorados.
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Depois veio o tempo em que todo o mundo se tornou fotógrafo. Desnecessário contratar alguém para a tarefa. Isto fez com que se registrassem cenas inimagináveis, se fosse para ir no ateliê. Por exemplo, o bebê dormindo; o menino na praia; a dona mexendo nas panelas.
Foi uma revolução. A popularização das câmeras mudou todos os conceitos. As situações comuns ganharam espaço igual ao dos grandes momentos. Nos álbuns de fotografias, dá para ver lado a lado a imagem da primeira comunhão com o flagrante de um joelho esfolado, por exemplo.
Um contratempo persistia, no entanto: a necessidade de revelar as fotos. Ou seja, era preciso um laboratório para transformá-las em documento impresso. Foto era coisa que só podia ser apreciada no papel, não tinha jeito.
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Hoje, estamos no meio de uma outra onda. Mais fácil ainda: nem a máquina fotográfica é necessária. O celular faz tudo. A revelação de fotos, por sua vez, praticamente saiu da moda. As fotos ficam armazenadas no próprio celular, no computador, na nuvem. Tira-se foto de tudo em múltiplas poses, para depois selecionar. Apagam-se fotos com um clique. Com o mesmo esforço as imagens são copiadas, maquiadas, re-enquadradas e distribuídas para o mundo.
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A última novidade (que eu saiba…) é o selfie. Ou seja, a gente pode se colocar, sem cerimônia, no meio de um cenário. O legal é isto mesmo: tomar conta. É possível fazer-se importante como um rei. Assim: lá está um trono, um monumento célebre, e o cara se bota ali como se fosse o dono do pedaço. É só achar o ângulo adequado e o trono parece nosso. Mais! Podemos simular o pé submetendo o bicho mais feroz. Dá para enquadrar o sol e fazê-lo nascer entre os nossos dedos, etc, etc. Nunca foi tão fácil sentir-se o máximo…
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Se você está em local de férias, aproveite para observar melhor. Com certeza fotógrafos não faltam. Seja um palácio, uma praia ou um sítio arqueológico, o primeiro plano fica reservado para o rosto do fotógrafo. O único cuidado é deixar uma fresta para o reconhecimento do local. A fresta, claro, tem de ter tamanho suficiente, para podermos divulgar onde estivemos.
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Fotografar tem quase mais destaque do que a visita propriamente. Também pudera! Hoje a fotografia dá a chance de experimentar um poder, que a vida em geral nega.
A fotografia oferece a deliciosa sensação de destaque e de prestígio. Pode não passar de uma ilusão – mas quem se importa?

