Todo mundo conhece a história da menina apelidada de Chapeuzinho Vermelho, aquela mesma que teve de atravessar um bosque, para chegar na casa da avó doente. Antes de sair, Chapeuzinho recebe instruções da mãe. A mãe ensina a pegar o caminho mais curto e a não se distrair na estrada. A mãe recomenda ir direto, sem olhar ao redor, para evitar os perigos do bosque. Tanto mais que há um lobo faminto, justamente à espreita, para atacar quem ande por ali.
Chapeuzinho sai de casa feliz. O dia está bonito e ela talvez nem perceba que toma o caminho errado. Ela está encantada com as borboletas, as flores e os passarinhos. Por isso, também nem nota que o lobo a segue, muito menos imagina que ele vai correr na frente, que vai atacar a avó e que ficará esperando, para pegá-la também.
No fim, quase que o lobo consegue pegar a chapeuzinho. Por um triz ela é salva pelos caçadores e a história – por que é uma história – acaba com um final feliz.
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A história da Chapeuzinho Vermelho em geral é contada para incentivar a obediência. Olha só o que acontece com crianças que não escutam os mais velhos! Se a menina fosse obediente, nada teria acontecido!
Só que não.
A simples existência de um lobo comprova o perigo. Segurança total é impossível. Se um lobo desapareceu, outros existem. Lobos rondam. Um dia voltarão a atacar.
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Por isso mesmo, eu acho que a história da Chapeuzinho é principalmente uma história de medo. Ou melhor, esta é uma história que dá forma para o medo que nos habita o tempo todo – sejamos crianças ou adultos.
Se quisermos, podemos continuar denominando o medo de medo do lobo. Mas o medo se apresenta de várias formas, também numa sensação de vazio, de preocupação. Uma sensação para a qual não existe a palavra exata.
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É agora, quando estamos em casa, mantendo o chamado distanciamento social, com menos distrações, é agora mesmo que o lobo põe o pé na porta e deixa vazar a sua sombra. O lobo rosna nas madrugadas em que não podemos dormir. O lobo ronda enquanto olhamos pela janela sem sair para a rua. O lobo pode chegar a qualquer momento. O lobo é invisível. Ele está fora. Mas está dentro também. O lobo mora dentro das nossas fragilidades.
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Neste momento temos a impressão de que o vírus é o lobo e de que o lobo é o vírus. Se surgir um medicamento, uma vacina, estaremos salvos. Será como a chegada dos caçadores na casa da vovó. Ufa! Aí nós poderemos voltar a engatar a correria que nos sossega. O medo do lobo será varrido para debaixo do tapete. Ficará escondido atrás das sacolas de compras…
Mas, se for para acreditar na centenária história de Chapeuzinho Vermelho, o lobo continuará existindo. O lobo espreita. O lobo aguarda. E nada garante que os caçadores vão chegar a tempo para nos salvar.

