Agora que todo mundo anda mascarado, fico pensando sobre este adereço que nos cobre a cara pela primeira vez na vida – e que muita gente reluta em adotar.
Os povos do oriente, japoneses em especial, usam máscara de forma corriqueira, há muito tempo. Nas situações de resfriado ou mesmo em casos de rinite e tosse, a máscara integra o rol das boas maneiras de comportamento, no Japão. Para esse povo, seria quase um desaforo espirrar e tossir sem proteger os outros. Pareceria uma indesculpável falta de consideração, uma grosseria.
Entre nós, a resistência à máscara é grande, em que pesem tantas campanhas em favor do uso e tantas provas dos bons resultados que oferece. Ainda mais agora, nesta situação de pandemia.
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Pensando bem, entre nós, a máscara nunca teve boa reputação. Nem a máscara concreta, nem a máscara invisível. Para nós, a máscara carrega um sentido duvidoso. Falamos, por exemplo, que fulano foi desmascarado. Ou dizemos que lhe caiu a máscara e isso nunca quer dizer uma coisa boa.
Será que ao fugir da máscara estaríamos respondendo aos sentidos negativos que ela traz e nem nos damos conta?
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Os bandidos desde sempre botaram máscara para dificultar o reconhecimento. Nós, tradicionalmente, botamos máscara com intenção um pouco parecida. No carnaval, por exemplo, a máscara que esconde a cara libera o folião para as loucuras que não faria de cara limpa. São famosas as máscaras das festas de Veneza. São famosas desde a Idade Média. Ocultos por máscaras que cobriam o rosto, religiosos, aristocratas e pés-rapados se misturavam e valia tudo…
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Senti o peso da máscara, eu mesma, ao entrar no banco dias atrás. Com a velocidade de um relâmpago me cruzou a mente a sensação de que ficara irreconhecível e poderia fazer o que quisesse. Era ilusão parecida com o que acontecia na infância. Se fechasse os olhos, ninguém me via…
Sabe, ali na agência, experimentei uns segundos da valentia da bandidagem. Um perigo! Me senti com tudo! Imaginei que poderia render a vigilância e limpar os caixas, sem ser reconhecida. Na sequência, sairia lépida, faceira… e rica. Tive que rir da fantasia, porque em seguida alguém chamou meu nome e a ilusão virou fumaça. Há-há-há.
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As máscaras invisíveis também usamos.
As máscaras invisíveis servem para exibir os comportamentos ensaiados, aqueles que escondem a complexidade que somos no fundo de nós mesmos. Complexidade que, às vezes, nem nós reconhecemos.
Se pudéssemos viver mais ao natural, simplesmente como esforçados aprendizes de bondade, talvez, sei lá, talvez ficasse menos complicado usar as máscaras de pano.

