
Toda sexta-feira, milhares de veículos cruzam a Freeway rumo ao litoral gaúcho e catarinense. Eles enfrentarão os engarrafamentos, as longas filas nos mercados, a disputa por espaço entre guarda-sóis e o risco das queimaduras por águas-vivas que, apenas nos últimos dias, já resultaram em mais de cinco mil atendimentos. E, mesmo assim, se algum maluco me convidar para um fim de semana de mar chocolatão, ficarei tentado a ir — mesmo que isso não seja exatamente sinônimo de confirmação.
Alguns amigos estabelecem estratégias específicas para esse período, como, por exemplo, rumar ao litoral em dias alternados. E isso realmente funciona. Mas nem todos conseguem antecipar a invasão para as quintas-feiras ou o retorno nas segundas. Os compromissos nas cidades de origem batem nas agendas. Muitos com alertas nesses infames relógios digitais — que ainda te avisam se a pressão arterial está mais alta. A ansiedade é vilã, sempre. Aliás, nesse quesito, sigo analógico.
Ah! E ainda tem o reforço dos hermanos argentinos e uruguaios, que fogem das águas geladas de suas praias para encarar milhares de quilômetros até Floripa, em sua grande maioria. Como moro próximo à BR-290, acompanho a aventura desse pessoal. Carros novos e antigos — alguns em estado deplorável — lotados de pais, avós, filhos e agregados rumo “a la playa”, como cantava o grupo italiano Righeira e que, “por supuesto”, fez enorme sucesso por aqui entre brasileiros, argentinos e uruguaios.
Uma amiga, proprietária de um restaurante às margens da rodovia, me diz que os menos abonados compram um xis e o dividem entre quatro — ou mais. Os dias fartos, do “dá-me dos”, estão no passado. A inflação caiu de 211% para 31%, mas o tal PIB castelhano segue em índice negativo. “Passamos por coisas muito piores e sobrevivemos, por isso não desistimos nunca”, me falou um argentino enquanto dividia um litrão de guaraná com a esposa, os filhos e a sogra.
Em resumo, concluo que é muito estressante e cansativo relaxar nesse período abafado do ano. Mesmo quem tenta escapar para a serra enfrenta algum movimento extra. Gramado, Canela ou Nova Petrópolis, entre tantas localidades lindas, se abarrotam de gente sedenta por chocolates, fondues e roupas de inverno que, talvez, nunca venham a usar. Foi aquele impulso consumista que levou quase a estourar o cartão de crédito.
Assim, por enquanto, permanecerei em casa. Mas qualquer convite para um fim de semana — seja no mar ou na serra — mexe comigo. Sim, eu sou fácil.

