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    O Alto TaquariBy O Alto Taquari26 de abril de 2024Nenhum comentário3 Mins Read
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    Acabo de ler um livro inspirador. Trata-se de “Minha guerra alheia”. A  escritora Marina Colasanti conta ali passagens da infância  transcorrida nas colônias italianas e a cidade de Roma, durante a segunda guerra mundial.

                            “Minha gerra alheia” traz  lembranças de um período em que – por causa da guerra – faltava tudo, até comida.  Mas sobravam outras coisas. Por exemplo, às crianças sobrava imaginação para criar brincadeiras e havia liberdade para viver as aventuras mais atrevidas. Tudo muito parecido com a infância da maioria de nós. Ou seja, nossas histórias de infância também poderiam render belos livros…

    *****

                            Eu teria lá os meus 5 anos. Na época, o pai criava frangos em escala um pouco maior do que a vizinhança. Ele tinha investido bastante no projeto. Comprara livros sobre o assunto. Adquirira também   uma chocadeira elétrica pois, naquela altura, para criar frangos era preciso começar chocando os ovos. O caso é que com a chocadeira era possível produzir lotes de aves  e assim ir programando a engorda, o crescimeno e a venda.

                            O caso que aqui interessa aconteceu provavelmente num domingo, pois a sesta dos adultos se espichou um pouco mais naquele dia de chuvisqueiro. Criança, claro, não sesteava. Criança aproveitava a folga. Meu amigo, o Cássio, e eu nos abrigamos no galinheiro. Ali  tinha mais espaço para inventar brinquedos. Com  os adultos longe, melhor ainda. 

                            A certa altura me veio a idéia de imitar a matação de  galinha, como eu via fazer em casa. E fui logo armando um empreendimento em escala industrial, tipo um abatedouro. Primeiro, fomos à divisão  de tarefas. Ao  Cássio coube correr atrás dos frangos e dar jeito de pegá-los. Havia frangos já crescidos e frangos menorzinhos. Os  maiores eram  mais difíceis de agarrar,  mas o Cássio encurralava os pobres e,  voltava  empunhando  uns dois ou três por vez. Eu cumpria a minha parte com eficiência igual. Me posicionei junto de um banco, perto da mão direita botei  o facão enferrujado que servia para picar gravetos. Do outro lado coloquei uma lata cheia de água. O facão devia servir para cortar o pescoço e abrir o peito. Devia… mas logo vi que o facão não dava conta e tratei de introduzir mudanças na programação. Resolvi pular a etapa de cortar pescoço. Era  mais fácil simplesmente afogar os frangos na lata de água fria.

                            O pai chegou quando a empresa já tinha ganhado ritmo. Havia um monte de aves desfalecidas ao redor ou dentro da lata afogadora. Ele  abriu os braços, decerto nem acreditando no que via. Guardo aquela expressão do seu rosto, a meio caminho entre assombro e  horror, mas não consegui escutar o que ele dizia.

    Ainda bem.

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