
A história de Bentinho ficou famosa. Ela é contada por Machado de Assis no livro “Don Casmurro”, que foi publicado no ano de 1900. Quase todo mundo já leu o livro ou, ao menos, já ouviu falar dele.
É assim. Bentinho amava Capitu desde que os dois eram crianças de escola. As famílias se conheciam bem, eram vizinhas, mas, para chegar ao casamento, foi preciso vencer a resistência de D. Glória. Acontece que D. Glória, a mãe de Bentinho, queria fazer dele um padre. Para felicidade geral da nação, acabou se conformando à vontade do filho. Não havia chance de ele ser feliz se não pudesse casar com Capitu.
Bentinho e Capitu casaram. Tiveram um filho e de fato foram felizes até que… Até que Bentinho começasse a duvidar de ser pai de seu filho. Passou a ver indícios de que a esposa e o melhor amigo o traíam. E assim vai a história. Mesmo depois da morte do amigo, mesmo longe de Capitu e do filho, Bentinho segue alimentando a dúvida, embora não haja certeza de nada. Tanto é que o livro acaba e o enigma continua.
Já se escreveram muitos livros sobre esse livro. Já se provou a culpa e também já se provou a inocência de Capitu. É quase automático que os leitores formulem uma conclusão a respeito.
Sucede que ficamos inquietos diante do mistério e nos apressamos a destrinchar as suspeitas, queremos achar solução. Ingmar Bergman dizia que os homens têm raiva do mistério.
Não sei se têm raiva. Sei que há menos certezas nesta vida do que gostaríamos que houvesse. A prova é que fazemos seguro de vida como se fosse a solução da lavoura. Demandamos penhor, caução, garantias nos atos da vida civil. Assinamos contratos. Elogiamos aqueles que não ficam em cima do muro e decidem ligeiro.
A imprecisão certamente incomoda. Dúvida produz ansiedade e angústia.
Existe uma palavra para definir a situação de Bentinho. A palavra é “arrepsia”. Arrepsia designa a dúvida permanente e incontornável; a hesitação como estado de espírito.
Pode ser que boa parte do stress de hoje em dia se ligue ao esforço de planejar tim-tim-por-tim-tim, ao esforço de submeter tudo ao controle. Queremos retirar da vida o desconhecimento, o mistério. E simplesmente não dá.
Gostemos ou não, a surpresa está sempre na espreita. Atrás da porta o inesperado está armando o seu bote… Um zás pode mudar tudo na vida.
Viver é mais perigoso do que às vezes parece.

