
Li e não me surpreendi: as mulheres brasileiras são maioria entre as pessoas afastadas do trabalho, ou mesmo do convívio social, por questões ligadas à saúde mental. O assunto ainda é tratado com altas doses de preconceito, cercado de rótulos cruéis como “mal-amada” ou “histérica”. Muitas vezes, por medo desses julgamentos, elas deixam de dividir suas angústias até mesmo com amigas ou familiares. Mas mascarar a situação não resolve. Em meio à rotina que sufoca, torna-se fundamental buscar apoio, seja entre profissionais da saúde ou nas pequenas redes de afeto do cotidiano.
Lembro dos períodos em que minha mãe dizia dormir bem e, ainda assim, acordava carregando o peso de um cansaço extremo. Era jovem, vivia em função da casa, dos meus avós, e praticamente não tinha nenhum programa que quebrasse a rotina das inúmeras responsabilidades. Até que, por sugestão de uma vizinha, aceitou fazer natação. Duas vezes por semana.
Em pouco mais de dois meses, tudo começou a mudar. Não apenas pelo exercício físico, mas pelo convívio, pela troca de experiências e pelas longas conversas entre as colegas da escola de natação.
Aquela sensação de viver permanentemente em alta rotação foi dando lugar à descoberta de um mundo onde havia espaço para conversas que não giravam apenas em torno das obrigações domésticas. Memórias, risadas, pequenos sonhos e assuntos distantes da lista de tarefas da casa. Aos poucos, as barreiras da ansiedade começaram a ceder.
Lembro do dia em que ela me disse, quase surpresa consigo mesma, que estava conseguindo sentar no sofá e experimentar o silêncio. Pensar em coisas distantes das necessidades do marido e dos filhos. E, pela primeira vez em muito tempo, viver sua própria hora de folga sem culpa.
Também começou a delegar funções. Eu me tornei o secador oficial de pratos e responsável pela limpeza de alguns ambientes. E ela decretou algo histórico: nunca mais arrumaria minha cama.
Aos poucos, passei a ajudar na cozinha. “Quem disse que isso é coisa de mulher?”, rebateu quando tentei escapar da missão. Logo lembrava dos grandes chefs. “Ora, eles vivem picando legumes, escolhendo cortes de carne e criando temperos.” Meio contrariado, acabei entrando no ritmo. Hoje sou o homem das panelas na minha casa.
E espero ainda contribuir para relações mais equilibradas nesse cotidiano dos casais, evitando sobrecargas que tantas vezes empurram mulheres ao esgotamento emocional. Tento fazer minha parte sem perfeccionismo, mas com aprendizado diário.
Nem penso em ser exemplo, nem em idealizar qualquer modelo feminino. O mais bonito talvez seja justamente isso: construir uma parceria verdadeira, capaz de ensinar todos os dias a delicada arte de viver a dois.
Está sobrecarregada? Peça ajuda. Família e amigos não existem apenas para aparecer em fotos bonitas nas redes sociais. Às vezes, uma conversa sincera pode funcionar como janela aberta numa casa abafada.

